No início dos anos 2000 poucas pessoas poderiam imaginar que as mensagens de texto se tornariam o centro de uma cultura onipresente de uso da Internet via smartphones e tablets. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018, cerca de 24,3 milhões de crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet no Brasil, o que corresponde a cerca de 86% do total de pessoas dessa faixa etária no país.

Este percentual é mais alto do que a média da população em geral [conectada], que está em torno de 70%. Isso mostra que crianças e adolescentes são um público bastante conectado à rede”,

disse Fabio Senne, coordenador de projetos de pesquisas do Cetic.br. Segundo ele, há três anos o uso da internet por esse público era 79%.

Há um incremento constante no percentual de usuários. E isso tem a ver também com as faixas etárias. Quando se chega na faixa entre 15 e 17 anos, esse percentual é ainda maior que os 86%”.

Esses números são apenas do público adolescente/jovem do Brasil. E esse público faz uma pressão por conteúdos simples, direto e instantâneo, e as mensagens de texto são a ferramenta perfeita, já desenvolvida para uma era imersa em informação, visto que não existe forma de interação digital mais simples que suas meras letras e números.

Escrita, editada e reescrita no ritmo do remetente, a aparência final de uma mensagem de texto não deixa transparecer nada de seu
processo de produção: hesitações, deslizes, atos falhos ou distrações. É, ao mesmo tempo, instantânea e atemporal, necessitando de atenção, mas sem exigi-la. Requer praticamente o mínimo possível de todos os envolvidos.

A importância das mensagens de texto evidencia um fato muitas vezes
menosprezado: de que as possibilidades teóricas da tecnologia são em último caso, menos importantes do que conveniência e controle. Se existe um sinal aqui, é o de que nossa necessidade crescente por conveniência envolve o risco de
sacrificarmos o controle de uma forma diferente: nossa capacidade de exigir
mais do que o mínimo possível tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Na produção de cinema, Tudo pelo poder, dirigido por George Clooney, membros da equipe de uma campanha presidencial são constantemente interrompidos por mensagens de texto e e-mails – realidade dos nossos tempos – e que, cada vez mais, invade todos os setores da sociedade. Milhares de mensagens de texto, não respeitam qualquer divisão de tempo e espaço que se queira impor. Como no filme, podemos acabar descobrindo que estamos colocando as “necessidades instantâneas e imediatas” acima de nossas próprias.

Já comentei sobre a importância de entender os momentos conectados e os momentos não conectados, como duas importantes fontes de recursos para nossa vida. É algo fácil de ser dito, mas bastante difícil de pôr em prática. De qualquer forma, estabelecer diferentes tipos de tempo para diferentes modos de ser é fundamental em muitas circunstâncias: não apenas em termos de se desconectar de todas as mídias, mas em perceber as diferenças entre dois desafios distintos – A melhor forma de utilizar um sistema tecnológico e a melhor forma de aproveitar a própria vida.

Vamos falar sobre uma das palavras mais repetidas de nossa era: “multitarefa”. Nesse termo, está embutido um conjunto de pressupostos que fundamenta muitas vidas modernas – a crença de que uma das maiores conveniências da tecnologia é a capacidade de executar várias tarefas simultaneamente, e que por causa disso só estamos em nossa melhor e mais eficiente forma quando conseguimos unir diversas correntes de atividade em uma.

Em março de 2007, esse pressuposto foi tema de um artigo do New York
Times. Com o título “Diminua o ritmo, bravo indivíduo multitarefa, e não leia este artigo no engarrafamento”, que revela a essência do argumento, o texto oferece uma conclusão indiscutível, em forma de conselho, e foi assinado pelo cientista cognitivo David E. Meyer, diretor do Laboratório de Cérebro, Cognição e Ação da Universidade de Michigan. Quando se trata de qualquer operação não corriqueira,

executar diversas tarefas ao mesmo tempo irá desconcentrá-lo,
aumentando suas chances de erro. (…) Adiamentos e interrupções são um mau negócio quando se trata de nossa capacidade de processar informações”.

Na realidade, o artigo sugere que a própria ideia de ser multitarefa é uma espécie de mito – afirmação confirmada por diversas pesquisas feitas por psicólogos, neurocientistas e sociólogos tanto antes quanto depois da publicação do artigo. Ao contrário das máquinas, nós humanos não temos a capacidade de dividir nossa atenção de maneira eficaz por entre múltiplas tarefas complexas. Em vez disso, nos deslocamos rapidamente de uma para outra, de forma que não estamos exatamente executando as operações simultaneamente, mas constantemente dividindo nossa atenção em pequenas porções.

Quando se trata de mensagens de texto e e-mails, isso funciona muito bem pela maior parte do tempo. Porém, se é preciso alternar essas “porções” de atenção com qualquer coisa que exija um esforço mental contínuo, nosso desempenho cai muito e rapidamente.

Por exemplo: de acordo com uma pesquisa da Microsoft, os funcionários levam em média 15 minutos para retomar “tarefas mentais complexas” depois de responder a um e-mail ou a uma mensagem de texto. Assim que são interrompidos, eles tendem a se distrair respondendo a outras mensagens ou navegando na internet.

Já em 1998, a escritora americana Linda Stone cunhou o termo

atenção parcial contínua

para descrever a noção de acompanhar informações de diversas fontes, ao mesmo tempo, em nível superficial. Essa ideia de uma atenção rasa e oscilante é provavelmente a descrição mais precisa do que muitos de nós fazemos a maior parte do tempo, em vez de sermos multitarefa: executamos uma simples operação mental de deslocamento em meio a uma enorme gama de fontes de informações, a nenhuma das quais conseguimos dar a atenção individual que uma verdadeira “tarefa” requer.

Monitorar múltiplas fontes de informação pode ser extremamente rentável em determinadas circunstâncias: quando estamos buscando dados, acompanhando os desdobramentos de um evento, coordenando um grupo de pessoas ou simplesmente procurando de forma livre por inspiração ou diversão. É uma habilidade necessária para vidas saturadas de informação. Contudo, isso não é o mesmo que dedicar integralmente sua atenção a uma atividade complexa – ou permitir que você se envolva profundamente com o lugar onde está e com as pessoas que estão ali com você. Multitarefa não é algo que a nossa mente realize com facilidade. Você consegue focar no trânsito e digitar, ao mesmo tempo? Não tente isso por favor.

Quando estou me deslocado, de ônibus, trem ou táxi, vou checando meus e-mails, escrevendo mensagens de texto, twitando e ouvindo música, estou ao mesmo tempo presente e ausente ali. O mundo e as pessoas ao meu redor estão em segundo plano em relação ao que acontece na minha tela. Minha atenção está não só em outro lugar, mas fragmentada e distribuída por diversos espaços.

Um novo tipo de comportamento surge a partir dessa noção de atenção parcial. Ligados em nossos fones de ouvido, digitando, falando ou até mesmo filmando o que acontece ao nosso redor, interpretamos um papel no drama da vida digital: o do cidadão autossuficiente, protegido das entediantes restrições da realidade pelos sons, imagens e amigos ao alcance de nossas mãos. Consideramos esse comportamento de uma forma legítimo porque ele está integrado à lógica da vida moderna: é um isolamento necessário para equilibrar nossa ininterrupta disponibilidade. É essencial representar esse papel esporadicamente. Contudo, a forma como ele pode passar de um recolhimento temporário a um modo constante de ser, traz à tona muitas questões importantes. Que tipo de atenção merecemos daqueles à nossa volta, ou devemos a eles? E que tipo de atenção nós mesmos merecemos, ou precisamos, se somos capazes de ser “nós” no sentido mais profundo possível?

Esta é uma questão que envolve não apenas as ações que buscamos
executar de maneira simultânea, mas também que parcela de nossa vida estamos preparados para delegar às tecnologias digitais – e até que ponto estamos dispostos a terceirizar não apenas a comunicação, mas também um crescente número de aspectos que nos cercam.

A memória.

Em um dispositivo digital, “memória” é uma sequência binária que codifica uma informação. Limitada, mas incrivelmente vasta, a capacidade média da memória de um computador atual alcança muitos bilhões de bits digitais: suficiente para armazenar bibliotecas inteiras, milhões de imagens, semanas de filmes.

Esse tipo de armazenamento digital é, de certa forma, superior à memória humana. Memórias de computador oferecem um registro completo, confiável e objetivo do que quer que seja alocado nelas. Elas não perdem capacidade com o passar do tempo e não se enganam. Podem ser compartilhadas e replicadas quase que infinitamente, sem perda, ou ser completamente apagadas, se assim desejarmos. Podem ser totalmente indexadas e rapidamente vasculhadas.
Podem ser acessadas a distância e transmitidas para o outro lado do mundo em uma fração de segundo, e seus conteúdos podem ser rearranjados, aumentados e atualizados de maneira ilimitada. De números de telefone e fotografias a documentos e diários, mantemos uma quantidade cada vez maior de memórias importantes de nossa vida dentro de máquinas: de informação bruta a momentos entre amigos e família.

Já a memória humana, em termos de computação, é bastante pobre: e é em termos de computação, que cada vez mais classificamos muitos aspectos de nossa mente. De forma muito previsível, nós as julgamos ultrapassadas e até mesmo desnecessárias. Chamar nossa memória de “memória”, comparada a computação, corro o risco de provocar uma confusão fundamental em relação ao que memórias significam para mim enquanto ser humano – e aos aspectos do eu e da lembrança que não podem ser terceirizados nem mesmo pela mais sofisticada das máquinas. Para dar um exemplo, nem mesmo o mais completo banco de dados possui algo que todo ser humano neste planeta tem, indiscutivelmente: uma história. Somos produto de nossa natureza, mas também de experiências únicas que nos remodelaram ao longo de nossa vida. Ao mesmo tempo que podemos identificar as áreas do nosso cérebro responsáveis pelas memórias de curto e de longo prazo, não existe nenhum módulo de memória mecânica dentro de nós.

Apesar da grande esperança da ciência, a mente humana não pode ser compartimentada como uma máquina. Não há dúvida de que é impossível haver algo como a memória humana sem que haja também raciocínio, sentimento e individualidade. O que vivenciamos, fazemos e aprendemos se torna uma parte de nós. Internalizamos acontecimentos, pessoas e ideais; refletimos, mudamos de ideia e temos
lembranças equivocadas, mantendo nosso passado como uma forma contínua de nosso presente. Não podemos terceirizar nossas verdadeiras memórias, da mesma forma que não podemos terceirizar nossos sentimentos e crenças – nem podemos separá-los de “nós”.

O escritor Nicholas Carr escreveu em seu livro A geração superficial: o que a internet está fazendo com o nosso cérebro, de 2010:

O que dá à verdadeira memória sua riqueza e seu caráter, para não dizer seu mistério e sua fragilidade, é a contingência. Ela existe no tempo, mudando conforme o corpo muda. (…) Quando passamos a usar a internet em substituição à memória pessoal, evitando o processo interno de consolidação, corremos o risco de esvaziar nossa mente de suas riquezas”.

Cada computador e cada dispositivo podem ser únicos e possuir uma história única, mas não é a singularidade deles que faz com que sejam o que são. Na maioria das vezes, eles funcionam apesar de suas histórias, como qualquer pessoa familiarizada com os sintomas de uma redução no desempenho nos sistemas operacionais sabe. Para uma máquina, o passado é um fardo obstrutivo. Classificar informação de maneira organizada e manter o setor operacional limpo é o melhor a fazer. É uma ótima lição para o reino do trabalho e da produtividade – mas também exatamente o oposto do necessário para se desenvolver uma mente humana bem abastecida.

Quando observamos a natureza e a qualidade de nossas interações com as pessoas à nossa volta, vemos que – e-mail, mensagens de texto, atualizações de status, redes sociais – têm o poder de nos privar daquilo que significa prosperar como ser humano: histórias compartilhadas, profundidade de sentimentos, respeito pelas singularidades alheias.

Apesar das previsões pessimistas de críticos como Carr, isso não precisa ser a máxima verdade. Porque o que está em jogo aqui não são apenas diferentes modos de atenção e de memória, mas diferentes modos de pensar que se situam entre ambos: um campo no qual nós, humanos, mostramos uma notável capacidade para a adaptação e para assumirmos a devida responsabilidade pelo que se passa em nossa cabeça.

Vamos considerar agora o campo emergente de estudos conhecido na ciência da computação como “engenharia de memória”. Projetada para cuidar da enorme enxurrada de informação que deixamos para trás, sua proposta não é a agregação bruta, mas sim o desejo de humanizar esses dados – e convertê-los de material eletrônico inerte em algo mais esotérico, diferenciado e que possa ser percebido de forma mais profunda.

O programador Jonathan Wegener, ajudou a inventar um serviço que chama a atenção para coisas que ocorreram em nossos históricos digitais exatamente um ano atrás: batizado de PastPosts, ele usa o Facebook para nos “trazer de volta” a atividades que ocorreram há exatamente um ano pelas nossas contas. Funcionando sob o slogan

O que você fez neste mesmo dia um ano atrás no Facebook?”,

é uma ideia simples, mas que evidencia quão fácil pode ser dar forma à história de um indivíduo por meio de um registro eletrônico indiferente. Dados, no fim das contas, são inertes apenas se deixarmos que permaneçam assim.

Eu vejo as páginas dos meus amigos no Facebook, seus sites, até mesmo seus avatares nos video games, e não enxergo nada anti-humano neles, mas sim a constante reafirmação do individual. Terminar um relacionamento por meio de mensagem de texto pode ser uma atitude cruel e covarde, mas o anúncio do nascimento de um filho em uma rede social, seguido por centenas de desejos de coisas boas por parte de amigos e familiares, não diminui ninguém.

Da mesma forma, um avanço positivo é o surgimento, na internet, de aplicativos e conselhos que ajudam a manter o foco em uma única tarefa, com dispositivos que vão desde um programa capaz de suspender a conexão com a internet por um determinado tempo até processadores de texto do tipo “tema escuro”, que reduzem a tela a um fundo preto e às palavras que estão sendo digitadas.

Entretanto, talvez o estado mental mais difícil de ser desenvolvido na era digital, seja bem diferente tanto da rápida reflexividade da atenção parcial quanto da concentração absoluta da atenção pura: os devaneios amorfos associados ao impulso criativo e à paz interior.

Os tipos de pensamento que podem surgir em momentos “vazios” de nossa vida – em uma viagem de ônibus, durante o banho, olhando pela janela enquanto viramos a página de um livro – são impossíveis de ser reproduzidos não só por meio de um dedicado planejamento digital, também por sessões de desconexão cuidadosamente agendadas. São momentos que nos assaltam, na maior parte das vezes, quando estamos desligados do tempo. São idiossincráticos, individuais e fruto da sorte – uma espécie de liberdade, nas palavras do filósofo iluminista britânico John Locke em seu Ensaio acerca do entendimento humano,

quando as ideias flutuam em nossa mente, sem qualquer reflexão ou percepção do entendimento”.

– assumir o controle e entender a natureza de nossa atenção –, esta frase indica que devemos dar atenção especial a alguns pontos:

  • Todos os sistemas e estratégias necessitam de algum espaço para o excêntrico.
  • Para que os pensamentos sejam inteiramente nossos, precisamos nos libertar não apenas do mau uso de determinadas ferramentas, mas também de nossas exigências e estratégias mais refinadas.

Enquanto escrevo este post, percebo quanto isso está presente. Quando escrevo regularmente usando papel e caneta, opção que faço pouco ultimamente, as palavras fluem como se já existissem com meia frase de antecedência em relação à ponta da caneta.

A lentidão mecânica da escrita me ajuda a senti-las tanto como sons e objetos quanto ideias, proporcionando um prazer sinestésico e estético conforme se apresentam. Escrever em um caderno, ajuda a mesclar processos de escrita e divagação, normalmente de forma inesperada: sentenças e frases surgem de repente, e sou obrigado a pensar até na grafia correta, na acentuação, etc; e depois de momentos de devaneio.

Talvez seja esse também o motivo pelo qual eu também faça anotações nas margens dos livros de papel. Peguei um livro antigo, da época da faculdade. Seus textos, margens e bordas todos marcados com anotações das falas e observações dos mestres. Momentos em que minhas ideias entravam em foco completo, estão marcados por linhas de garranchos.

Essas ações – ler com uma caneta na mão, andar com um caderno na mochila – permitem que mente viaje. Que minhas ideias sejam parte de um processo requintado, mas ao mesmo tempo necessário, para transformar meu trabalho em algo que seja ao mesmo tempo rigoroso e propriedade exclusiva minha.

Minha escrita no computador, ao contrário, é marcada mais por releituras pela estruturação de parágrafos e argumentos: disciplinas essenciais, mas muito mais vulneráveis às tentações da atenção parcial e da navegação na internet.

Digitando em meu computador, fica fácil permitir que essas distrações
empurrem um ansioso arsenal de ideias para áreas distantes da minha atenção. Enquanto eu estiver editando, digitando, fazendo pesquisas e checando e-mails pouco importantes, posso permanecer em negação. Então, me afasto da tela e os assuntos com os quais preciso me preocupar de verdade começam a emergir.
Meus métodos pessoais de trabalho não são um modelo ou um ideal. Às
vezes eles não funcionam nem comigo, que dirá com outras pessoas. Mas eles sugerem, eu espero, algo que pode ser feito na prática para evitar que a lógica das ferramentas digitais se sobreponham à lógica do nosso pensamento: o modo como diferentes tipos e texturas de tempo podem nos ajudar a nos conhecermos melhor, em vez de nos restringir a um único comportamento. Os cadernos e as anotações do próprio autor: uma licença semilegível para deixar a atenção vagar.
Devemos ser capazes de nos adaptar às circunstâncias. Mas também
precisamos adaptar nossas circunstâncias a nós mesmos, fazendo um esforço para que elas se ajustem ao grande espectro de nossa observação, nossos pensamentos e nossas emoções. Isso inclui a capacidade de dividir nossa atenção; ou então de nos dedicarmos inteiramente a uma ideia, ou a uma pessoa em detrimento de todas as outras. Porém, é preciso que haja tempo e espaço para outras liberdades – e para que coloquemos em prática métodos de trabalho que não precisam de nenhuma justificativa além do fato de que funcionam para nós.

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