17/03/2020

A ameaça ao Capitalismo de livre mercado e comércio

Por wcalazans

A economia global passou por mudanças consideráveis nas últimas duas décadas e os resultados foram variados.

Do lado positivo, a revolução digital melhorou significativamente a vida das pessoas em todo o mundo. Os avanços tecnológicos, como o smartphone, a Internet sem fio e o desenvolvimento econômico gerado pela globalização, trouxeram um declínio da pobreza extrema em todo o mundo.

No entanto, esses benefícios foram acompanhados por grandes desbalanceamentos nos mercados de trabalho, beneficiando trabalhadores de países em desenvolvimento e impactando severamente os trabalhadores de economias avançadas.

A promessa do progresso tecnológico e da globalização como impulsionadores do crescimento e da prosperidade tem sido uma realidade para muitos, mas também provocou muita desigualdade econômica ao redor do mundo.

O que está acontecendo?

Parte da resposta a essa pergunta, pode ser encontrada olhando o passado, especificamente para a evolução do capitalismo de livre mercado e livre comércio, ao longo dos últimos dois séculos.

Adam Smith, economista e filósofo escocês do século XVIII, pai do livre mercado, do capitalismo de livre comércio e uma das principais figuras do Iluminismo, em seu trabalho The Wealth of Nations (A riqueza das Nações), que é considerado o primeiro trabalho moderno da economia, explicou que, em um mercado livre, um indivíduo que busca seus próprios interesses tende a promover também o bem de sua comunidade como um todo e que o mercado livre, embora pareça caótico e desenfreado, é realmente orientado a produzir os resultados certos com a chamada mão invisível.

Nos últimos 200 anos, assistimos a muitas variantes do capitalismo. Geralmente, todas elas baseiam-se na mesma vertente: a propriedade privada dos meios de produção, a operação com fins lucrativos e a acumulação de capital. A economia neoclássica, formulada pela primeira vez no século 19, levou a um modelo de capitalismo laissez-faire, com base na premissa de que, com todas as informações relevantes, as pessoas tomarão decisões racionais, os mercados por si mesmos alcançarão os resultados certos e as intervenções dos governos, – como por exemplo, regulamentações, subsídios e tarifas – são, quase sempre, aplicados de forma não adequada.

A fé nas economias neoclássicas foi abalada na década de 1930 pela Grande Depressão, dando origem à economia keynesiana, do economista britânico John Maynard Keynes. Seu modelo, mais pragmático e de capitalismo misto, baseado em uma economia predominantemente do setor privado, mas com um papel apropriado para o setor público, dominou o pensamento econômico pelas próximas quatro décadas.

A partir da década de 1970, no entanto, a economia keynesiana começou a cair em desuso com o retorno ao neoclassicismo liderado pela Chicago School of Economics, que defendia uma confiança quase universal nos mercados, um papel mais limitado para o governo e uma crença de que maximizar o valor para os acionistas deveria ser objetivo primordial de uma empresa.

A Escola de Chicago teve grande influência para o mundo, na segunda metade do século XX, especialmente com o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan e o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan. Porém, sua influência diminuiu consideravelmente após a crise financeira global de 2008, que muitos acreditam ser em grande parte, o resultado de suas visões restritas de empresas e governo.

Em um artigo do Financial Times de 2009, Amartya Sen, economista de Harvard e ganhador do Prêmio Nobel, escreveu sobre o futuro do capitalismo após a crise financeira de 2008.

“O que exatamente é o capitalismo?”

“A definição padrão parece ser a confiança nos mercados para transações econômicas como uma qualificação necessária para que uma economia seja vista como capitalista. De maneira semelhante, a dependência do lucro e dos direitos individuais baseados na propriedade privada são vistos como características arquetípicas do capitalismo. No entanto, se esses são requisitos necessários, os sistemas econômicos que temos atualmente, por exemplo, na Europa e na América, são genuinamente capitalistas? Todos os países ricos do mundo – tanto na Europa quanto nos EUA, Canadá, Japão, Cingapura, Coréia do Sul, Taiwan, Austrália e outros – dependem há algum tempo de transações que ocorrem em grande parte fora dos mercados, como seguro desemprego, benefícios, pensões públicas e outras características da seguridade social, não deixando de mencionar educação e saúde pública”.

O professor Sen observou que em países ricos, onde o capitalismo teve mais sucesso, ele é pragmático, não ideologicamente puro, e que esse pragmatismo remonta ao próprio Adam Smith.

“É frequentemente esquecido que Smith não considerou o mecanismo de mercado puro um executor independente de excelência, nem considerou o motivo do lucro como tudo o que é necessário … As pessoas buscam o comércio por interesses próprios – nada mais; como discutiu Smith repetidamente, explicando por que padeiros, cervejeiros, açougueiros e consumidores buscam o comércio. No entanto, uma economia precisa de outros valores e compromissos, como confiança mútua e confiança para trabalhar com eficiência.”

Em um sistema capitalista, a desconfiança e a falta de confiança nos outros têm consequências de longo alcance e contribuíram muito para gerar a crise financeira de 2008 e dificultar sua recuperação.

“As dificuldades econômicas de hoje não exigem um novo capitalismo, mas exigem uma compreensão aberta das idéias antigas sobre o alcance e os limites da economia de mercado. O que é necessário, acima de tudo, é uma apreciação clara de como as diferentes instituições funcionam, além de uma compreensão de como uma variedade de organizações – de Empresas ao Estado – podem juntas contribuir para produzir um mundo econômico mais decente.

Uma combinação recente de fatores – como por exemplo, o crescimento explosivo da Internet e o mercado global intensamente competitivo – torna obrigatório que uma empresa opere de maneira cada vez mais uniforme, usando talentos, recursos, custos e oportunidades de inovação para se destacar e conseguir autonomia de mercado.

A globalização precisa ser vista e revista, caso contrário, só trará o descontentamento generalizado.

Em última análise, as pessoas podem optar por eleger governos mais impositivos, com medidas regulatórias mais restritivas sobre comércio e o trabalho, talvez de um tipo mais ‘protecionista’; que por outro lado, leva ao nacionalismo extremo e isso também não é bom. A mudança em sí, deve oferecer para empresas a oportunidade de promover o crescimento dos negócios e o progresso da sociedade. Mas isso levanta questões grandes demais e muitas vezes polarizadas, apenas para negócios ou apenas para o governo resolver.

“Hoje, o mundo está em uma encruzilhada. um coro crescente de nacionalismo ecoa nos países desenvolvidos; exigindo fronteiras mais rígidas e restrições à imigração. As negociações comerciais globais estão prejudicadas e os acordos comerciais regionais enfrentam fortes ventos de oposição.”

O capitalismo de livre mercado e livre comércio está em uma encruzilhada. Embora a principal responsabilidade dos líderes continue sendo a viabilidade e a prosperidade de suas próprias empresas, eles não podem mais se concentrar exclusivamente em seus acionistas, ignorando os interesses de clientes, funcionários e comunidades em que vivem. As empresas devem trabalhar em estreita colaboração com os governos de todo o mundo para ajudar a formular um modelo mais inclusivo para o desenvolvimento econômico global e o progresso tecnológico – uma espécie de novo Iluminismo do século XXI.

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