08/03/2020

50 anos depois, os inventores da Internet falam sobre Ela

Por wcalazans

Cinquenta anos atrás, foi criado o primeiro link de dados permanente entre um computador na UCLA e o Instituto de Pesquisa Stanford (SRI). Foi a primeira conexão da ARPANET, que se tornaria uma grande rede de computadores militares e de pesquisa e mais tarde se tornaria a Internet pública que conhecemos hoje. As consequências não intencionais desta primeira conexão, surgiriam mais tarde, e mesmo as pessoas que ajudaram a estabelecer a primeira conexão da ARPANET parecem muito preocupadas com o que a internet se tornou hoje.

O professor da UCLA, Leonard Kleinrock, ainda hoje mostra com orgulho a sala 3420, no Boelter Hall do departamento de engenharia – onde a primeira mensagem na Internet foi enviada por um estudante de pós-graduação chamado Charley Kline ao cientista Bill Duvall no SRI em 29 de outubro de 1969.

Kleinrock desenvolveu grande parte da base teórica para a primeira rede digital e precursora da Internet. Mas, apesar de suas convicções de que a internet teve um impacto positivo no mundo, algumas de suas reflexões mostram que a internet evoluiu para algo que não é do bem.

Kleinrock diz que não esperava o surgimento das mídias sociais e das redes sociais. E é aí que muitos dos maiores problemas da Internet se derivam, enfatiza – coisas como adulteração de eleições, capitalismo de vigilância, bullying, notícias falsas, deepfakes, pornografia e assim por diante. Kleinrock diz que inicialmente viu essas coisas como problemas que os cidadãos da internet acabariam reagindo e resolvendo.

“Eu costumava dizer que a internet estava passando pela adolescência, mas não digo mais isso.”

As desvantagens de uma Internet social

A Internet é um playground para os piores instintos dos seres humanos.
A maioria dos problemas apontados por Kleinrock ocorre no contexto das redes sociais e outros espaços sociais online, onde o anonimato dos usuários e a falta de responsabilidade on-line, permitem às pessoas fazer declarações e agir sem ter que assumir responsabilidade pessoal por seus atos. Ninguém precisa colocar sua reputação em risco, da mesma maneira que em um espaço público físico.

As pessoas, podem considerar as outras pessoas na Internet, apenas como um pontos na tela, algo menos que o real, e podem achar mais fácil maltratá-las on-line por causa disso. Por causa do seu anonimato e relacionamento frágil com os outros, é muito fácil espalhar boatos e informações não factuais.

Charley Kline, que enviou a primeira mensagem da Internet, diz que a Internet moderna pode atuar e espalhar coisas ruins mais rapidamente e mais longe do que qualquer outro meio de comunicação anterior.

“publicar um panfleto dizendo que alguém é estuprador, dá muito trabalho” … “Agora você pode fazer isso em apenas alguns segundos e espalhá-lo para milhões de pessoas”.

Para remediar o problema de identidade e responsabilidade, Kleinrock diz que uma reputação digital, atribuída à identidade online de uma pessoa, seria bem vinda.

Se alguém usa habitualmente o Twitter, sua reputação digital mostraria isso. Se alguém recomendasse um produto que as pessoas acabassem amando, isso seria creditado a ele também.

A força democratizante da Internet

Nos anos 70 e 80, a ARPANET era uma rede para um grupo exclusivo de pessoas altamente qualificadas – cientistas, professores, pessoas do governo ou militares e havia um conjunto de regras para a comunicação

Impulsionada pelo advento do computador pessoal, a Internet acabou sendo comercializada e oferecida aos consumidores. Em meados dos anos 90, milhões de pessoas já a estavam acessando. O próprio Kleinrock antecipou que grandes redes de computadores se tornariam um fenômeno do mercado de massa, mas ele não viu claramente como seria utilizada.

A internet começou como uma plataforma de comunicação “um para muitos”. Um número relativamente pequeno de editores, criou ou selecionou conteúdo para um grande número de internautas. Mas desde o início, a internet tinha instintos populistas. Na década de 2000, a internet estava rapidamente se tornando uma plataforma muitos-para-muitos, um lugar onde as pessoas podiam publicar, ou selecionar, seu próprio conteúdo.

  • Os internaltas fizeram seus próprios vídeos para o YouTube.
  • Os internaltas compartilharam as notícias e informações que se encaixavam com sua visão de mundo no Facebook e no Twitter.

Ao contrário da rede restrita, prevista em seu início, a internet se tornou uma grande força democratizante. Como plataforma de publicação, transformou pessoas comuns em jornalistas, videomakers e especialistas.

Ela transformou donas de casa em influenciadoras e os jogadores de vídeo game em celebridades. Mas esse próspero ecossistema populista, e as empresas que fazem negócios lá, tradicionalmente resistem às regras e regulamentos, especialmente do governo. Isso remonta ao início, desde a ARPANET. Sempre havia um espírito de autogovernança. Isso é ilustrado claramente nesta diretriz, encontrada em um manual de etiqueta de rede de 1982 do AI Lab do MIT:

”. . . as mensagens pessoais para outros assinantes da ARPANet (por exemplo, para organizar uma reunião ou dizer um alô amigável) geralmente não são consideradas prejudiciais ”, … “Enviar correio eletrônico pela ARPANet para fins comerciais ou políticos é anti-social e ilegal. Ao enviar essas mensagens, você pode ofender muitas pessoas. . . ”

Essa internet inicial não tinha leis e regulamentos, mas diretrizes voluntárias e uma suposição de que os usuários queriam manter a qualidade de sua rede. Também era para criar uma sensação de liberdade, diz Kline.

“Houve uma tentativa consciente de dizer: ‘Olha, não vamos restringir o que pode ser feito nessa rede’, em parte porque, ao permitir que ela seja aberta, pensamos que coisas novas serão inventadas e descobriremos coisas inteligentes que podemos fazer ”…
“Mas ninguém estava pensando em como isso poderia ser mal utilizado, o que obviamente aconteceu”.

A responsabilidade dos atuais barões da Internet

Kline ressalta que as pessoas que estavam construindo a ARPANET em 1969 nunca sonharam que milhões de pessoas estariam um dia na mesma rede. Os criadores da ARPANET podem ser perdoados por não olhar quatro décadas no futuro para os problemas da Internet pública de hoje. Mas o cientista Bill Duvall, que recebeu a primeira mensagem na Internet há 50 anos, diz que os barões da internet de hoje não têm essa desculpa.

“Existe uma responsabilidade social na criação disso” … “Não acho que os cientistas da computação tenham se saído muito bem: ‘Se projetar isso, acontecerá aquilo; ou: é melhor fazer algo para resolver isso'”.

Sim, ele está se referindo ao Facebook.

“Quando o Facebook está basicamente configurando algo que pode claramente ser usado para notícias falsas, eles deveriam pensar ao mesmo tempo em como controlar isso” … “Isso não foi feito e estamos pagando muito caro por isso.”

Kleinrock, Duvall e Kline dizem que a internet, em geral, foi transformadora e boa para o mundo. Mas os três homens da Internet concordam que a Internet poderia ter evoluído para algo onde houvesse mais proteção para os usuários.
Duvall diz que apenas as pessoas que ajudaram a construir e promover a internet – tecnólogos – podem realmente entender a complexidade de seus problemas. Portanto, cabe às empresas de tecnologia, não aos governos, encontrar e aplicar as tecnologias e políticas que resolverão os seus problemas. Fazer isso adequadamente pode exigir que as empresas de tecnologia deixem de lado os interesses dos acionistas e façam o certo pelas sociedades de onde obtêm lucros.

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