O outro lado da tecnologia

Este post foi escrito com base na Introdução e no capítulo 19 (que fala sobre tecnologia), do livro do sociólogo e futurólogo Alvin Toffler, ecrito em 1970. O livro surgiu de um artigo chamado “O Futuro como Modo de Vida” na revista Horizon, edição de Verão de 1965. O livro já vendeu mais de 6 milhões de cópias e recebeu o título de Future Shock. Ele fala um pouco sobre as enorme mudanças que sociedade estava passando, em meados dos anos 1960.

Em meu post aqui, tomo a liberdade de adaptar as datas para 2020, quando originalmente escrevi estas anotações e a sensação que tenho é que o livro não foi escrito lá no início dos 1970 e sim, agora em nossos dias, pois o ‘shock’ de realidades parece ser o mesmo. Aproveite a leitura.

Nestas duas curtas décadas do século XXI, milhões de pessoas enfrentam uma colisão abrupta com o futuro. Pessoas pobres e ricas estão achando cada vez mais difícil acompanhar a demanda incessante por mudanças que caracterizam o nosso tempo. Para esses, a sensação é de que o futuro chegou muito cedo.

A sociedade foi apanhada por uma tempestade de mudanças. E a tempestade, longe de diminuir, agora parece estar ganhando força. A mudança atinge a tudo e a todos: igrejas, universidades, comunidades científicas, do Ártico ao Antártico, da Califórnia à Nova Zelândia e gera mudanças estranhas:

  • Crianças que aos 12 anos não são mais criancas;
  • Adultos que aos cinquenta são infantilizados.
  • Ricos que fingem ser pobres;
  • Pobres que ostentam ser ricos;
  • Programadores e desenvolvedores de sistemas que usam LSD.
  • Anarquistas conformistas e conformistas anarquistas.
  • Padres casados,
  • Teólogos ateus e judeus zen-budistas.

Temos ainda o pop … a arte cinética … Clubs para Playboys e cinemas homossexuais … anfetaminas e tranquilizantes … raiva, riqueza e esquecimento. Muito esquecimento.

Uma estranha nova sociedade está aparentemente surgindo em nosso meio. Existe uma maneira de entendê-la, de moldar seu desenvolvimento? Como podemos chegar a um acordo sobre isso? Muito do que agora nos parece incompreensível seria muito menos incompreensível se dessemos uma nova olhada no ritmo acelerado de mudança que faz a realidade parecer, às vezes, algo completamente descontrolado. A aceleração das mudanças não se limitam a prejudicar as indústrias ou as nações. Ela penetra profundamente em nossas vidas, nos obriga a desempenhar novos papéis e nos confronta com o perigo de uma doença psicológica nova e poderosamente perturbadora. Essa nova doença pode ser chamada de “futuro” e o conhecimento de suas fontes e sintomas ajuda a explicar muitas coisas que, de outra forma, desafiam a análise racional. Podemos mudar? Podemos seguir nesse curso?

Não importa o que tentemos fazer. Não adianta mudarmos a educação ou a sociedade como um todo… ainda estaremos todos presos a trilhos, se deslocando em alta velocidade para longe de valores outrora muito distintos do que vemos agora.

O crescimento populacional vertiginoso a urbanização, as mudanças nas proporções de jovens e idosos – todos desempenham seu papel. No entanto, o avanço tecnológico é claramente um nó crítico na rede de causas; na verdade, pode ser o nó que ativa toda a rede de causas. Uma estratégia poderosa na batalha para evitar choques futuros em massa, envolve a regulação consciente do avanço tecnológico. Não podemos e não devemos desligar o interruptor do progresso tecnológico.

Apenas tolos românticos falam sobre retornar a um estado em que pessoas morriam por falta de cuidados médicos elementares. Como Hobbes comenta, a vida típica é

pobre, desagradável, brutal e curta“.

Virar as costas à tecnologia não seria apenas estúpido, mas imoral. Dado que a maioria ainda vive figurativamente há séculos atrás, quem somos nós para pensar em jogar fora a chave do progresso?

Aqueles que tagarelam o contra-senso antitecnológico em nome de alguns vagos “valores humanos” precisam ser questionados “quais valores humanos?”

Retroceder deliberadamente o relógio seria condenar bilhões à miséria forçada e permanente, precisamente no momento da história em que sua libertação se torna possível.

Não precisamos de menos tecnologia; precisamos de mais! Ao mesmo tempo, é inegavelmente verdade que frequentemente aplicamos novas tecnologias de maneira estúpida e egoísta.

Em nossa pressa em ordenhar a tecnologia para obter vantagens econômicas imediatas, transformamos nosso meio ambiente em uma caixa de pólvora física e social. A aceleração da difusão, o caráter de auto-reforço do avanço tecnológico, pelo qual cada passo à frente facilita não um, mas muitos passos adicionais, a ligação íntima entre tecnologia e arranjos sociais – tudo isso cria uma forma de poluição psicológica, uma aceleração aparentemente imparável do ritmo de vida. Essa poluição psíquica é acompanhada pelo vômito industrial que enche nossos céus e mares. Pesticidas e herbicidas se infiltram em nossos alimentos. Carcaças de automóveis, latas de alumínio, garrafas de vidro não retornáveis e plásticos sintéticos formam imensos restos de cozinha em nosso meio, à medida que mais e mais detritos resistem à decomposição. Nem mesmo começamos a saber o que fazer com nossos resíduos radioativos – se o bombeamos na terra, o atiramos no espaço ou o despejamos nos oceanos.

Nossos poderes tecnológicos aumentam, mas os efeitos colaterais e perigos potenciais também aumentam. Corremos o risco de termopoluição dos próprios oceanos, superaquecendo-os, destruindo quantidades incomensuráveis de vida marinha, talvez até derretendo as calotas polares.

Em terra, concentramos grandes massas de população em pequenas ilhas urbano-tecnológicas, onde parece que usamos mais oxigênio do ar do que pode ser reposto, evocando a possibilidade de novos Saharas onde as cidades estão agora. Por meio dessas perturbações da ecologia natural, podemos literalmente, nas palavras do biólogo Barry Commoner, estar

destruindo este planeta como um lugar adequado para habitação humana“.

À medida que os efeitos da tecnologia aplicada de forma irresponsável se tornam mais evidentes, as reações políticas aumentam. Evidências adicionais de profunda preocupação com nosso curso tecnológico estão aparecendo em várias nações. Vemos hoje os primeiros vislumbres de uma revolta internacional que abalará parlamentos e congressos nas próximas décadas. Este protesto contra a devastação da tecnologia usada irresponsavelmente poderia se cristalizar em forma patológica. À medida que as pressões por mudança afetam mais fortemente o indivíduo e a prevalência de choques futuros aumenta, esse resultado de pesadelo ganha plausibilidade.

O incipiente movimento mundial pelo controle da tecnologia, entretanto, não deve cair nas mãos de irresponsáveis tecnófobos. Tentativas imprudentes de interromper a tecnologia produzirão resultados tão destrutivos quanto tentativas imprudentes de promovê-la. Presos entre esses perigos gêmeos, precisamos desesperadamente de um movimento para a tecnologia responsável. Precisamos de um amplo agrupamento político racionalmente comprometido com a pesquisa científica e o avanço tecnológico – de forma seletiva. Deveríamos formular um conjunto de objetivos tecnológicos positivos para o futuro. Tal conjunto de objetivos, se abrangente e bem elaborado, poderia colocar ordem em um campo agora em ruínas.

Não é nada reconfortante saber que, quando a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou seu relatório sobre ciência, um de seus autores, confessou:

Chegamos à conclusão de que estávamos procurando algo … que não estava lá: uma política científica.

O comitê poderia ter procurado ainda mais e com menos sucesso ainda, por qualquer coisa que se parecesse com uma política tecnológica consciente. Os radicais freqüentemente acusam a “classe dominante” ou o “Establishment” ou simplesmente “eles” de controlar a sociedade de maneiras hostis ao bem-estar das massas. Essas acusações podem ter ponto ocasional. No entanto, hoje enfrentamos uma realidade ainda mais perigosa: muitos males sociais são menos consequência do controle opressor do que da falta de controle opressor. A terrível verdade é que, no que diz respeito a muita tecnologia, ninguém está no comando.

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