Em 2019 tive a oportunidade de conhecer a região do Vale do Silício – Califórnia e ver as sedes de empresas que constantemente estão na tela do meu smartphone.

Hoje, quando olho para o Google, no meu navegador, consigo imaginar um lugar, pessoas, histórias que se sobrepõe à virtualidade dos dados. Consigo imaginar o edifício, pátios, cantinas, etc. e as pessoas que trabalham duro, executando seus projetos.

Alguns pontos são bem comuns para quem trabalha em grandes empresas de tecnologia, outros pontos, me dão a sensação de algo muito paternalista. Não vou fazer críticas… A baía de São Francisco, cercada por autoestradas e montanhas distantes corroboram para o positivismo. San Jose, Santa Clara, Palo Alto, Mountain View, Cupertino, Sunny Valley, San Mateo, São Francisco, respiram a tech cultura e um incansável modernismo que inspira as necessidades e os caprichos dos usuários, com elegâncias incessantemente ajustadas para se adaptar a qualquer coisa e a qualquer pessoa. Também existe uma lógica de negócios agressiva associada a tudo – todas as high Techs, são obstinadas por catalogação e análise de dados, e para a estratégia enormemente lucrativa de associar propaganda a termos, produtos e serviços.

Para mim, assim como para muitas outras pessoas, as high Techs do Vale do Silício, são empresas cujos valores estão voltados para a simplicidade, a eficiência e a consistência; e eu aproveito tudo isso da melhor forma possível; ainda assim, por trás da maravilhosa mecânica algorítmica, existem pessoas brilhantes, parciais e imperfeitas, assim como em qualquer outro lugar. Existem discussões e sentimentos controversos sobre projetos; problemas conhecidos e frustrações.

Acho que nem os funcionários mais geniais das high Techs levam em consideração a formidável obra da tecnologia que carregam em seus bolsos. Ao manusearmos algo tão complexo e compacto como um smartphone, é difícil imaginar as cadeias de fornecimento e de
manufatura que o trazem à luz:

  • A mineração de metais para os circuitos, baterias e processadores;
  • A destilação do petróleo para obtenção de plásticos de alta performance;
  • O trabalho braçal e a engenharia de programação;
  • O design, os protótipos e as patentes.

Para as pessoas que olham para o smartphone como um objeto que existe apenas ali, como uma ferramenta de pesquisa, aplicativos e câmera, fica ainda mais difícil de entender.

Nossos hábitos de tratar aparelhos digitais como se fossem naturais ou inevitáveis, nos levam a situá-los além da história e do erro humano. No Google, na Amazon, na Apple, na Adobe, cada bit é fruto de trabalho humano tanto quanto uma calça jeans ou uma pilha Duracell. E por trás de suas existências, há contextos humanos, culturais e históricos.

Como o escritor Jaron Lanier ressaltou em seu livro Gadget – Você não é um aplicativo! mesmo algo aparentemente simples, como o armazenamento de dados, depende de formatos e dispositivos tecnológicos particulares. Um livro, um filme ou uma música salvos como um arquivo de computador não são um registro físico: sem o software e o hardware adequados para convertê-los em som e imagem, eles não servem para nada.

Ter acesso a essas tecnologias nunca foi tão fácil. Apesar disso, compreendê-las se torna cada vez mais difícil; um processo do qual os fabricantes estão cada vez mais cientes, decididos e até obstinados, explicitamente a encorajar a venda de dispositivos e serviços que funcionam assim “touch and play”, com pouca margem para os usuários personalizem suas próprias experiências ou que enxerguem além dos pixels na tela, para entender o que acontece lá dentro.

Vender conveniência e segurança fazem parte do encanto que esses dispositivos provocam. Abrir a caixa de um smartphone novo, ligar e usar diretamente, levou a perda de algumas formas de controle; que os usuários aceitam muito bem, como sendo preço a pagar – mas os usuários estão realmente cientes do preço que está sendo pago? A relação hardware, software e usuário de smartphone, não é clara e tão pouco difundida.

  • Intermináveis páginas não lidas de Contratos de Licença do Usuário Final listam os direitos que estamos repassando quando usamos a maioria dos serviços;
  • Contratos de compra especificam que muitos produtos digitais não pertencem de fato a seus compradores, mas estão apenas sendo cedidos;
  • Em ambos os casos, se o serviço ou o suporte apropriados forem revogados, tudo o que sobra é informação inútil e inerte.

Desvendar o significado desses contextos é um importante desafio, em última instância porque ele pode obstruir de modo significativo a rotina casual de utilização simples de produtos e serviços.

Vale lembrar, no entanto, que, a não ser que nos debrucemos atentamente sobre as intenções e limitações escondidas em nossas ferramentas, podemos esperar apenas pouquíssimas melhorias e cada vez mais abusos.

Como John Naughton, professor de compreensão pública da tecnologia da Open University, escreveu em um artigo, publicado no The Observer,

ao utilizar serviços ‘gratuitos’, é preciso aceitar que você (ou, mais especificamente, a sua identidade) é o produto”.

Não existe almoço grátis, nem mesmo na internet.

Entender os problemas e os potenciais das tecnologias é se tornar mais forte. Podemos estar vivendo em uma era na qual serviços e dispositivos parecem mais próximos de uma estrutura ecológica do que meramente mecânica – e isso pode fazer com que seus fabricantes exijam que os tratemos dessa forma – mas a única natureza que moldou essas tecnologias foi a nossa própria. Se não formos capazes de compreender as histórias e complexidades por trás desse cenário em constante mutação que é o mundo digital, jamais alcançaremos aqueles que o construíram – nem suas críticas, seus avisos, propagandas e alternativas.

É provável que você não consiga imaginar uma alternativa ao Facebook da noite para o dia, ou uma loja virtual capaz de superar a Amazon. Mas você pode aprender a usar cada um deles de uma forma um pouco melhor – e a prestar atenção naquilo que ninguém pode fazer por você.

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